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ÉTICA E ESTÉTICA , APOLO, DIONÍSIO E A POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

A ética é o resultado de um contínuo processo evolutivo advindo do aprendizado das relações que o indivíduo tem consigo mesmo, com os demais indivíduos e com o poder superior divino, obviamente incluindo todas as questões existenciais que são angustiantes, por conterem os temas da morte, da falta de sentido, da solidão e da liberdade. Por isso, os verdadeiros códigos de ética advindos de todas as tradições espirituais sempre exigem que os indivíduos estejam submissos a um poder superior divino e, por isso mesmo, agindo com características e atitudes construtivas em busca de harmonia, reciprocidade e paz, objetivando o bem comum, o desenvolvimento do potencial humano e a felicidade.

Muitas vezes confundimos código de ética com código de conduta, porque ambos exigem submissão, mas o primeiro é a um poder superior divino e o segundo pode ser apenas a um poder superior profano e, por isso mesmo, pode não abranger os ideais de liberdade, igualdade, fraternidade e solidariedade a todos os seres sensientes, independente de credos, raças e condições sócio e econômicas. Então, o código de conduta de uma penitenciária, no crime organizado ou narcotráfico, de muitos políticos corruptos e até do nazismo, apesar de seguirem padrões lógicos e até estéticos, não são éticos, pois não incluem a dimensão espiritual e social, apenas a racional amparada pelos desejos ilusórios de poder e vaidade dos seus líderes, que abusam de mecanismos de controle punitivos e acúmulo de riquezas materiais contribuindo para mais exclusão social.

O problema é que muitas vezes vemos líderes vaidosos e inescrupulosos agirem sem ética, usando até as escrituras sagradas para seus benefícios pessoais, manipulando as pessoas, desvirtuando a ética e abusando de interpretações dos livros sagrados, ora com leituras fundamentalistas focais ora com metáforas distorcidas. Porém, como todo ser humano tem uma centelha divina dentro de si, sempre surgirá um mal estar em continuar seguindo ou servindo a algo que fere sua ética interior. Isso é o que aconteceu com vários santos e heróis que transgrediram códigos de condutas aéticos, apesar de amparados em bases sagradas ou legais, por terem sido manipuladas. É o caso de São Paulo Apóstolo, São Francisco de Assis, Mahatma Gandhi, Tiradentes, Giordano Bruno, entre outros.

Na realidade, um atitude ética exige que os indivíduos incluam as dimensões do bom do belo e do verdadeiro, advindas da conexão com o sagrado, das artes e da ciência. Ou seja, reciprocamente, dos cérebros neo-cortical, límbico e reptiliano. Desta forma, a ética sempre implica no autoconhecimento e na consciência dos nossos passos, dos nossos trajetos e caminhos, de forma implicativa e com total clareza a que estamos submissos ou, em outras palavras, qual é nosso caráter missionário e qual é o poder superior que estamos servindo, e se esse poder é divino?

Apesar de alguns autores fazerem distinção entre ética e moral, onde a primeira é mais ligada às questões espirituais, íntimas e individuais e a segunda as questões coletivas e sociais, eu as coloco na mesma categoria, pois ambas devem respeitar o poder superior divino ou sagrado, seja ele individual ou coletivo. Além disso, apesar dos romanos terem dominado fisicamente os gregos, eles acabaram sendo “dominados” pela cultura, filosofia e mitologia grega, que é a base do direito dos comuns dos USA ou do romano que é o nosso. Na maioria das vezes, como os romanos apenas deram novos nomes para os conceitos, divindades ou heróis helênicos e isso também vale para a ética que é uma palavra de origem grega e a moral que é romana.

Neste sentido, na mitologia grega, temos as questões apolíneas e dionisíacas tão bem trabalhadas por Nietzsche, na sua obra: ”O nascimento da tragédia”. Para ele o apolíneo e o dionisíaco são complementares entre si e foram separados pela civilização dominada e manipulada por lideres antiéticos, que afastaram o trabalho manual do intelectual, o cidadão do político, o poeta do filósofo, enfim divorciaram Eros do Logos. Situação que, para mim, acabou desembocando no desencantamento do mundo citado por Max Weber e nessa falta de ética presente na maioria dos nossos políticos, que visam apenas o estético imediato e inconseqüente, pautado nos acúmulos e conquistas de cada mandato. Com isso, o ardor dionisíaco é esfriado pela ordem apolínea, fazendo com que o entusiasmo seja substituído pela euforia ou pela depressão.

Dionísio ou Baco, filho de Zeus e da mortal Semele, é o deus do vinho, da agricultura e fertilidade da natureza, das religiões misteriosas, do êxtase, da liberação e da transcendência. Nas suas festividades muitas pessoas se embebedavam e se divertiam surgindo dois tipos de indivíduos, em função das suas atitudes: os eufóricos (que ficavam fora de si - euforikós) e os entusiasmados (que não perdiam sua conexão com Deus interior, ou Self - enthéos). Os eufóricos se perdiam nas bacantes e não chegavam a sua meta final que era poder banhar-se nas águas curativas de Dionísio que poliam e lustravam quem nelas eram “batizadas”, daí vêm às palavras polido e ilustre das etiquetas sociais, conotando que esses indivíduos podem ser mais éticos, pois passaram pelo processo do autoconhecimento, apesar de que muitas pessoas podem agir apenas teatralmente, representando um personagem para poder enganar e ludibriar por estarem reproduzindo códigos de condutas hierárquicos, coercitivos, racionais e puramente estéticos como o do nazismo de Hitler. Desta forma, a ética vem da experiência da conexão com o deus interior e do processo dionisíaco.

Apolo, por sua vez, é filho de Zeus e Leto, irmão gêmeo de Artemis, é o deus das artes, obviamente excluindo o teatro que é dionisíaco. Seu oráculo em Delfos era o mais importante de toda a Grécia, onde aconteciam curas e predições. Porém, Apolo ou Hélio, apesar da beleza e busca de perfeição estética não consegue se relacionar amorosamente com ninguém, todas as tentativas foram frustradas e traumáticas para seus parceiros, porque ele não possui pólos, ou seja, é apenas logos, razão lógica e estética sem compaixão e respeito pelas diferenças que acabam tornando-se em desigualdades e exclusões por conta do seu código de conduta hierárquicos e coercitivos baseado apenas nos valores estéticos usando e abusando das deusas Métris e Anaké, das Moiras e da Nêmeses, dando limites, apesar das necessidades, destino rígido e castigos punitivos e reparadores para quem cometer a hibrys e ultrapassar o métrom, que é a justa medida, confundindo-se com os deuses. Ou seja, negando o divino interior.

O preocupante nisso tudo é que os seguidores de Apolo são os politókos e, por isso mesmo, a ética na política fica mais improvável pois sem o autoconhecimento que lhes possibilitariam fidelidade ideológica eles acabam se dedicando a esse atual código de conduta antético, voltado apenas para maquiagem superficial e efêmera das questões sociais, abusando dos seus poderes para o enriquecimento e o acúmulo pessoal promovendo mais exclusão e iniqüidades. Desta forma, cabe a todo indivíduo que consegui passar pela bacante Dionísia sem ter ficado eufórico ou depressivo a promover a ampliação da consciência humana no sentido de exigirmos a ética como a base de qualquer ato político.

* WALDEMAR MAGALDI FILHO (www.waldemarmagaldi.com). Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado”, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, DAC – Dependências, abusos e compulsões, Arteterapia e Expressões Criativas e Formação Transdisciplinar em Educação e Saúde Espiritual do IJEP em parceria com a FACIS. wmagaldi@gmail.com

 

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